Vestibular

A Médica Cor-de-Rosa

A médica
cor-de-rosa
não parava de
falar em seu celular:

Viagens,
aviões e voos
perdidos,
"tem que remarcar".

Quando libertou-se
lentamente pôs
a trabalhar em
seu ofício árduo.

Testou,
anotou,
testou
e carimbou.

Findando-se
os exames
tão insignificantes
quanto um piloto

de avião,

ela interrogou-me.
Falei no congestionamento
que afligia meu
sistema respiratório.

Mas sem clareza.

Ela brincou de advinha:

Agora a minha é Federal

Acordado por um telefonema
feliz e previsto,
fui perguntar onde estava
a tal da UFBa.

E lá estava,
meu nome digitado
na lista dos aprovados.

A felicidade me consumiu,
o orgulho próprio também.

Nutri o orgulho por outrem,
com felicitações mútuas,

dizendo em voz alta:
a nossa é Federal!

UFBa, cadê tu?

UFBa!
Cadê tu?
Que tanto aflige-me,
causa-me angústia
por tua espera.

Queres tanto-te
para dizer-te minha!

Por favor,
deixe de bobagem,
saía logo nessa internet.

Pois se assim não ser,
atualizarei o portal
até meu dedo doer.

Mais um dia na vida de Henrique

Ele acordou cedo como sempre. Seu compromisso com para o colégio não parecia ter fim. Acorda, já está na hora Henrique! Já estou indo. As aulas eram sim, insuportáveis para ele, mas não era como se ele tivesse alguma escolha. A questão era passar no vestibular, sua vida dependia nisso, ao menos era isso que tentavam colocar em sua mente. Passar, de primeira e na Federal. Continuaria acordando cedo, indo às aulas de matérias que não tinha o mínimo interesse e que não teria verdadeira utilidade futura.

Passei, Porra! Para a Segunda Fase.

Quando o vi,
Estremeci-me!

Meu nome, sim,
Sou eu!

Passei, porra! mas
Ainda tem
A segunda fase.

O Fim da Marcha

Minha marcha
Está chegando ao fim

Será na costa
Mais azulada do salvador

E lá hei de
Determinar meu parcial sucesso

Ou não.

Adiamento

No crepúsculo
Do dia da libertação

Debaixo da terra
Nos subsolos risonhos

Só há sono
Cansaço desmedido

Que saco!
Não agüento mais

Ninguém mais agüenta
Nem mais uma semana sequer

Porém, ainda dias e dias
Fazem distante

A redenção ou condenação
De cada escravo

Pela caneta própria

Inscrição

É hoje
Dia único

Decisivo
Importantíssimo

Mas, mais um protocolo
Documento qualquer

Para tantos
Que tem como ofício

A burocracia
Acadêmica

Mas não sou este
Tedioso ser

Sou aquele
Esperanto

Que esperou e esperou
Tempos e tempos

Para uma terça
D'aula tarde

Para preencher
Formulário longuíssimo

Que pedia tudo
Só faltava a filiação

(como um certo NENÉM
verde como a paz)

Ei de ser alguém certo
Fazer Direito

E passar
Para os montes

Que cercam
Um vale

Soteropolitano

Risos Abafados

Debaixo da Terra
Nos porões vestibulandos

Existem povos
De risos insanos

Risos cafeinizados
Ou fisiocráticos

Ao som de aves
Impiedosas e incorruptíveis

Ronald Carvalho
Quem o diga

No meio de nomes
Allados

Ai daquele clamar
Por silêncio

Terá provocação
Em seu caminho

Enquanto só ouve
Risos

Nada de conteúdo
Só risos

Estudos ou quasi-estudos?

Entre um texto
Uma fórmula

Sempre caí bem um lanchinho
Talvez um pequeno exercício

Aquela meditação básica
Para relaxar e apaziguar-se

Entre um questão
De Biologia e Literatura

A pausa é boa
Faz-se pensar

Em mitocôndrias
Em cortiços cariocas

Assim se estuda
Ou fingi-se

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