Primeiro Podcast

Recusa Previsível

Ah, formosa.
Garota linda,
Que não me escapa
A atenção.

Podia, eu mesmo,
Levantar-me, pedir
Sua mão.

Mas esse script
Hollywoodiano
Já me é familiar.

Sei, sua recusa
É certa, inevitável.
Pois em mim, nada
Interessará-la.
Ai, como gostaria
De quebrar essa rotina,
Desses desejos irrealizáveis,

Para, então, jamais ter
Que assistir a este filme
Da Sessão da Tarde,

Outra vez.

O Ônibus e a Chuva

Do ônibus, via-se
A chuva
Já no horizonte.

Ela estava chegando e chegando,
Ou o ônibus adentrava-na,
Aquela nuvem terrena de
Água em queda-livre.

E quando ao ponto chegou,
A corrida foi grande para sair
Daquela lata de sardinha sobre rodas.

"Piada" de Escritório

Atenção!
A tensão,
Consomem-vos todos!

Os gritos ressoavam
Através dos corredores
Mofados e abafados
Da burocracia eletrônica.

Vamos!
Atenção!
Acabai com vossa tensão!

Era ordem, chefia.
Aquela sisuda
Cega, em nome
Do conhecido Estado.

Atenção!

Dos Onívoros Ambientalistas

Abraçam as árvores
Diante de uma feroz
Escavadeira atroz
Derrubadora de flora.

Defendem a Amazônia
Enquanto a vigiam,
Com seus satélites
Terceirizados, na internet.

Mas esquecem que
Aquele bife, que está
Em seu prato,
Fede a madeira queimada,

Dos pastos mais criminosos,
Regados a sangue e morte
Bovinas, criados das cinzas
Da mata milenar.

Dos Onívoros Defensores de Animais

Militantes da defesa animal
Com cadáveres em seus estômagos
Gritam por piedade em nome dos devorados.

A piedade é seletiva,
Só haverá dó para quem for previamente
Escolhido por sua beleza ou utilidade.

Gritam pela justiça imprescritível,
Não vendo o especismo
Em suas próprias barrigas.

Esquecem que aquela massa morta,
No frigorifico do supermercado,
Já fez parte dum ser senciente.

Hipocrisia imensurável,
Em seus alicerces mais fundamentais.
Faltam-lhes é vergonha na cara.

Dor em Circo de Animais

Com a morte ossada numa mão
E o chicote da dor em outra
O mestre do circo faz espetáculo.

Leões pulam círculos de fogo,
Elefantes equilibram-se em bolas
E macacos dançam, alegremente,

Ao som dos aplausos insurrecionadores
De uma plateia de cegos, que não querem ver
O que pagam para acontecer

Nos porões sofridos, cujos corredores
Ressoam granidos e gemidos,
De sofrimento animal, inaudíveis.

Em nome de entretenimento fútil,
Vergonha de nossa espécie,
Que rega dor anti-ética.

Negando a vida descente
A inocentes que só conhecem
Tortura e ignorância.

Pensamentos Infundados

Entre linhas didáticas
Estava eu, pensando nela
Divagando em tolices.

Imagine, se ela me ligasse
Agora mesmo, sem sentido.
E dizer-me que o que penso
É realidade concreta.

Correspondido,
Mas apenas em pensamentos
Tão infundados e alucinados.

Sobretudo com sua ignorância
Garantida pela incerteza,
Que a manutenção do segredo
De porte alheio, me proporciona.

Garota Cor de Bronze

Linda garota cor de bronze
Dos cabelos ondulados negros

Como queria dizer-te o quanto quero-te
Possuir-te e a todo o bem
Para o resto da eternidade

Ter-te em todo momento
Para acariciar-te
Enquanto beijo-te

Mas não
Sei que não há de haver

Pois és livre
Sempre foras e serás
Para sustentar o sorriso que ostenta

No meio dessa multidão
Multicolorida e mestiça, mas pálida
Que é nosso meio.

O Fim da Marcha

Minha marcha
Está chegando ao fim

Será na costa
Mais azulada do salvador

E lá hei de
Determinar meu parcial sucesso

Ou não.

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