Caros leitores,
Hoje estou reabrindo o meu blogue, agora com um novo motor, ou gerenciador de conteúdo caso queira chamá-lo assim. Troquei o Wordpress pelo Drupal, que já conhecia a tempos porém havia abandonado por acreditar que não precisaria do complexo sistema que é o Drupal. Mas vejo agora que poderei ter maior liberdade usando o Drupal do que o Wordpress, então resolvi mudar novamente.
Caso não saibam, o meu primeiro blogue usava esse motor, lá em 2007, então estou voltando às raízes!
O relatório do presidente da primeira Sessão do Comitê Revolucionário Militar, General Malheiros, fez a euforia alegremente disciplinada espalhar-se pelo salão principal do Palácio Presidencial. Lá estavam os principais generais, brigadeiros e almirantes; aliados com um único real objetivo: aumentar os seus próprios soldos em um nome nobre, que ainda não encontraram.
Contudo, Malheiros não havia planejado o depois da operação — sua formação tradicional restringia suas habilidades e conhecimentos políticos. Indo contra sua vontade, teve que expor aos oficiais a falta de planejamento pós-golpe, mostrando sua incompetência.
— Senhores e senhoras, tenho que, contudo, expor-vos uma verdade: não sei bem o que mais faremos cá. As opções são inúmeras, mas um plano escolhido não há. Agora abro a sessão para dirigir, a mesa, sugestões.
O oficialato estremeceu-se: tinham o poder, mas não sabiam o que fazer com ele. E como o general mais poderoso da nação não pensou nessa situação? Quanta imprudência, um verdadeiro incompetente e fanfarrão. Porém, não havia espaço para condenar abertamente o líder, apenas para obedecer a sua ordem de elaborar e revelar sugestões. A grande maioria dos oficiais não tinham sequer uma formação política básica (aqueles que o tinha fingiam não o ter para aliviar suas mentes da árdua tarefa de pensar racionalmente), porém os comandantes das armas e uma pequena quantidade de oficiais a tinha. A primeira a pronunciar-se foi a sagaz e acadêmica, porém louca, almirante Almeida.
— Senhor, vejamos bem a situação que o senhor nos colocou: estamos no poder mas não sabemos o que fazer com ele, — ria-se diante da constrangida audiência — agora precisamos solucionar no mínimo dois problemas: justificar nossa “intervenção” no governo e traçar o fado para nosso papel aqui. Através de meus estudos jurídicos, dos quais todos vos sabem, concluo que há embasamento constitucional para nossa intervenção. Bastamos argumentar que “algum dos poderes ameaçaram os valores democráticos e republicanos da nação”. Digo, podemos encontrar alguma prova que o infame presidente não passava de um monarquista e pá: resolvemos o problema. E então, o que me dizem?
A almirante Almeida não parava de rir-se. A loucura risonha da comandante naval não assustava mais ninguém, pois já era de conhecimento público. Sua fala foi respeitada diante dos doutorados que recolhera em todo mundo. O único que resolveu intervir foi o antigo chefe da Segurança Pessoal presidencial, o homem que tinha maior contato com o presidente.
— Monarquista o presidente não era, mas corrupto sem dúvidas. Basta irmos para a mansão dele na ilha que veremos muito bem do que estou falando.
— Então, temos nosso pretexto senhores e senhoras oficiais. Agora basta formularmos um plano para sair daqui e garantir nosso aumento perpétuo. Algum de vocês têm uma ideia?
Um oficial de azul e branco se moveu pela multidão sisuda. Se tratava do brigadeiro Eloí, conhecido por seus infames planos megalomaníaco que envolviam tomar o porta-aviões da marinha, tornando a aeronáutica a mais abrangente e poderosa força armada. Porém, Almeida estragou os planos de Eloí, criando um clima tenso entre os dois oficiais e as duas forças armadas.
— Senhor, temos três ou quatro possibilidades. A primeira seria bem simples: nos perpetuar no poder. Assim asseguraríamos nosso aumento, nosso poder e nossa vontade até quando sairmos do trono presidencial. Nossos colegas de armas do estrangeiro podem nos ajudar nessa operação, por ser já uma especialidade deles: governar. A segunda alternativa é meio arriscada, pois vai comprometer nosso pretexto. Damos o poder ao Partido Restaurador, que obviamente irá restaurar a monarquia, e então nós sustentamos o novo regime. Isso, como a almirante já afirmou, seria inconstitucional. A terceira possibilidade seria dar o poder ao Partido Ecologista, que não passa de uma facção sem real ideologia do Partido Verde Democrático, que seria nosso marionete na questão do soldo. Para mim, a primeira opção seria sem dúvidas a melhor.
Os oficiais se estarreceram.
— Senhor brigadeiro Eloí, não podemos admitir que nossa imagem de defensores da democracia, da liberdade e da república seja manchada por tão pouco! Somos, até hoje, os únicos no continente a manter-nos fiéis aos princípios que tangem nossa sociedade. Só a menção dessas suas palavras são inadmissíveis!
Era o General José Carlos Guerra, cuja fala tinha sido finalizada por um barulho desconexo de palmas, xingamentos, palavras de ordem e vaias. Não se sabia quem estava louvando quem, quem estava vaiando quem. Malheiros logo percebeu que estava perdendo o controle sobre o oficialato. Sacou sua arma e disparou três tiros contra o teto, só no terceiro as pessoas acalmaram-se e quietaram-se. Apenas os risos de Almeida continuavam, descontroladamente. O gesso do teto caiu em cima do paletó de Eloí, o irritando profundamente. Só depois de alguns suspiros Malheiros discursou.
— Oficiais, Guerra tem razão: não podemos assumir o poder do país puramente, de forma tão despótica, seria contra nossos ideais. E Eloí, a terceira opção é a mais racional, sem duvidas. Algum outro oficial-de-armas tem algo a acrescentar, alguma sugestão ou objeção à decisão da mesa?
Malheiros deu a palavra para quem o quisesse, mas não percebeu que ainda apontava a sua pistola para a multidão fardada, muda pela ameaça e falta de criatividade momentânea.
— Então, que assim seja! Próximo mês, começamos a fazer a transição para a verdadeira democracia, com uma nova constituição e com o Partido Ecologista, eleito, no poder. Viva a República!
— Viva a República.
Os gritos de “Viva a República” foram tímidos, porém onipresentes. O destino da nação estava nas mãos do Partido Ecologista de agora em diante, pois os militares não queriam ser vistos como ditadores nem admitiam a verdadeira democracia eleitoral. Fora isso, não havia marionete melhor por perto.
O Brasil tremeu durante aqueles poucos segundos pelas 19:00 horas, horário de Brasília. Era um momento de luto, um momento de tremenda morbidade enquanto a Abertura de “O Guaraní” tocava pela rádio. Todos sabiam que não era coisa, não poderia ser jamais coisa boa quando a nação inteira ouvia a mesma melodia na rádio: era a Hora do Brasil.
A nação não queria uma hora para si, ela queria que todas as horas fossem suas.
O momento é agora,
sempre foi agora.
Momento para refletir
sobre a vida e
sobre o passado
para enxergar melhor
o futuro sempre presente.
Momento de agir,
tomar uma decisão
e a por em prática.
Momento de abrir
a boca e falar,
desamarrar os dedos.
Ouvir e fazer-se
ser ouvido.
Momento de levantar-se
da poltrona do conforto
para marchar nas ruas
em meio ao confronto.
Enfim,
é momento de se viver.
Senhores,
os senhores não têm
fuzis em seus punhos,
tampouco balas em suas mãos.
Mas elas serão desnecessárias
para o combate que terão.
Pois suas armas serão suas bocas,
cheias de dentes e de sons.
Suas munições serão fabricadas em série,
por suas mentes industriais.
Nossa guerra não é terrena,
é ideológica.
As batalhas serão nas mentes
e é nelas onde haverá
o embate final.
Santíssima Sexta-feira,
dia de matança.
Dia de orar pelo senhor,
ao lado do ser senciente
inocente que deve sentir
em sua pele a dor do senhor.
Dia de dizer amém para
a louvação da morte
em nome de Cristo e
do hábito insano.
Cadáveres em decomposição
no prato santificado.
O árduo caminho até
o cadafalso me é familiar,
pois ele sou eu.
O povo me atormentando,
gritando em meus ouvidos,
atirando tomates podres, são eu.
Os guardas me defendendo,
enquanto dão cotoveladas
muito bem afiadas, são eu.
O carrasco em sua fantasia
horrenda e suja de sangue,
é ninguém mais além de mim.
Mas a enxada enferrujada,
essa não sou eu, nem poderia.
É o amor e a paixão.
Olha só que peixe azul lindo... e esse verde, brilhosos? Vocês tem um roxo?
Ele não nasceu assim, o fizeram assim.
Dizem que é pintura.
Um roxo! Que lindo... eu quero um.
Eles não duram muito, sabe? Nem podem conviver no mesmo aquário, se mutilam, canibalismo.
Que louco, esses peixes são lindos mas tão loucos... quanto é o roxo?
Vinte reais.
E vendem-os por vinte reais, na promoção!
Fall in love.
Os anglófonos
sabem muito bem
o que é a paixão,
e até mesmo o
amor:
um posso fundo,
onde os desavisados
caem sem hesitação.
O homem de
toga branca
falava e falava
no palanque roxo.
Falava não,
gritava:
Morte, sangue...
é isso que temos
que arrancar
de todos os cantos
de nosso coração
e de nossa alma.
Então o homem
sacou sua arma
de fogo ao lado
do livro sagrado.
Mirou no livro e
atirou sem dó
nem piedade
com um sorriso
cínico em sua
face engordurada
e farta de suor,
daquele frio.
O livro sangrou,
enquanto os fieis
gritavam sem parar:
Hallelujah!
Lá no fundo do templo,
o ateu abriu os olhos
diante da patética ironia
do rebanho fiel.