Causa Mortis: Apatia

A um tempo atrás, quando ainda não existia Salvador Shopping e o aeroporto se chamava Dois de Julho, existia um bar em um certo bairro litorâneo da cidade. Lá, diariamente, se bebia até cair, se debatia sobre a vida alheia até o alheio tomar medidas drásticas e se assediava travestis até que alguma discussão acalorada virava briga. O dono desse bar, o seu Gabriel, sempre estava presente quando um conflito sério estourava, mas seu permanente estado de embriaguez o tornava um árbitro ineficaz, apesar de reconhecer o quão nocivo essas lutas eram para o bolso dele.

Em um dia como qualquer outro, o cliente mais fiel do Gabriel, o tal de Marcos, estava no bar como fazia todos os dias praticamente. Estava em sua décima cerveja do dia e já sentava naquela cadeira fétida de bar-de-esquina faziam praticamente toda a madrugada. O sol começou a ranhar no horizonte soteropolitano, tornado o céu de Salvador vermelho. Mas, para a infelicidade de Marcos, o vermelho fortíssimo que via não poderia ser do céu, era o sangue que escorria por sua testa suja de suor e poeira. Alguém havia, ele pensou, quebrado uma garrafa em sua cabeça. A primeira coisa que lhe veio a cabeça foi vingança, tinha que se vingar de quem o atacara.

Olhou ao seu redor, não viu ninguém suspeito: apenas alguns de seus amigos-de-bar bêbados, ignorando sua existência e dor de cabeça. Ninguém deu a mínima, ninguém na cidade inteira daria (nem sua família), exceto Gabriel que gritou:

─ Marcos?! Quê é isso em sua cabeça, vei?

Notas violetas e vermelhas em chamas vieram no imaginário de Gabriel. Perder Marcos era como perder uma mina de dinheiro, que raramente se encontrava em Salvador com tanta facilidade. Marcos lentamente respondeu honestamente, que não sabia o que havia acontecido. Sua suspeita que foi alguém com uma garrafa era o resultado de longas sessões de filme de piratas e de velho oeste. Então Gabriel o segurou e colocou em uma cadeira, pois Marcos estava caído no chão. Ninguém deu a mínima.

Gabriel correu para o telefone, procurando pelo número de ambulâncias em sua agenda. As poucas que encontrou, não atendiam o telefonema, para o azar de seu fiel cliente. Os gráficos decrescentes causaram grande tormento para Gabriel, porém ele engoliu tudo como se fosse uma dose de vodca. Deixou Marcos de lado e voltou ao trabalho.

Marcos continuou na cadeira durante o restante da manhã, criando uma poça de sangue considerável em volta de sua cadeira. Os pedestres passavam cegamente ao seu redor, surdos dos gemidos que Marcos fazia. Até mesmo uma ambulância passou próximo, mas nada fez. Ignorou-se a existência dele e sua dor.

Quando o sol começou a se por no horizonte soteropolitano, Gabriel e sua cambada retornaram para mais uma noite alcoolizada. Um deles se aproximou para o que deveria ser Marcos e tirou-lhe o pulso. Estava morto e começava a feder um pouco. O sofrimento de Marcos finalmente chegou ao fim junto com sua vida, para seu alívio, apesar de nunca saber quem o matou realmente.

No dia seguinte foi o enterro. Compareceu a família de Marcos (sua mulher e dois filhos), Gabriel e mais ninguém. Não houve choro, declamações, nem nada de importante. Apenas se cumpriu o ritual social que era exigido. Todos foram embora, como se nada de importante tivesse acontecido.