O Professor Subversivo Revisitado

Nem o fato de ser o Dia da Revolução, o mais importante feriado nacional, nem o fato de estar chovendo como nunca mais havia chovido na cidade fizeram com que as aulas fossem canceladas. Nada impediria que Liberato cumprisse suas obrigações escolares naquele dia. A chuva espessa que surpreendeu a todos naquele verão o ensopara até o ponto de ônibus. Em condições normais, ele caminhava até o colégio, mas a chuva incessante o forçou ao ponto de fazer com que ele gastasse seu contado dinheiro do lanche em transporte. Um gasto perdoável.

Seu colégio, o Colégio Nacional Elói de Sá, ficava na praça Almirante Cláudia Almeida, cujo meio era demarcado por uma imponente estátua veicular da famosa líder revolucionária. Porém, da janela do ônibus apenas se conseguia ver uma nuvem cinza que se assemelhava, vagamente, àquela estátua. O resto não passava de névoas de verde e marrom, em meio da chuva torrencial.

Ao sair do ônibus, Liberato correu, quase tropeçando, para dentro do colégio. Encontrou a portaria quase que abandonada, tendo como responsável apenas um segurança em vez dos três que normalmente cumprimentava diariamente:

─ Bom dia.

─ Bom dia, Liberato.

A maioria dos funcionários deveriam ter se negado a sair de casa devido a chuva, o fato de ser um feriado nacional colaborou na evasão massiva.

Liberato corria. Mas sua pressa não era devido sua grande e legítima vontade de assistir a aula de Atualidades, mas sim por causa da intolerância do professor com qualquer atraso, faça chuva, faça sol, e sua natural necessidade de aprovação na matéria para concluir o curso. Quando abriu a porta, deparou-se com o professor carrancudo:

─ São horas, Liberato?

─ Bom dia professor.

─ Vamos, sente-te e permaneça em silêncio. Já bastou a distração que causaste agora, viste?

Por ironia do destino, o professor era vizinho de Liberato, mas sempre o negava uma possibilidade de o dar carona. Suas justificativas eram fracas ou até mesmo infundadas e descaradas mentiras, o que causava um grande enfurecimento na alma de Liberato.

A monotonia da aula de Atualidades era uma constância para os estudantes do Elói de Sá, a sua falta de dinamismo e método educacional ultrapassada deixavam a aula quase que intolerável para qualquer um assistir. Porém, o cenário alterava-se de forma substancial quando a polêmica se instalava na sala de aula. Isso só ocorria quando, para o azar de Liberato, as bases ideológicas de seu amado partido eram colocados em pauta e atacadas sem dó.

─ Silêncio!

O professor, certamente autoritário, não tolerava a mínima conversa fiada em suas aulas, tanto as paralelas quanto as perpendiculares. A forma a qual impunha sua visão de mundo aos estudantes era tão evidente, que apelidavam a aula dele de “aula de Doutrinação”. Para ele, o Partido Ecologista não passava do maior reduto de hipócritas e corruptos, a fonte de todos os problemas que o país era castigado.

─ Que dia é hoje?

─ Dia da Revolução, professor.

─ Dia da Revolução ou seria o Dia do Entreguismo? Do do Golpe? Mas da revolução? Me poupem. Essa suposta revolução não passou de um tremendo golpe muito bem arquitetado e planejado. Esse discurso de revoluçãozinha foi apenas feita para enganar o povo. Mas não foi feito para enganar a vocês. Vocês precisam entender que esse golpe não passou de uma conspiração ecologista internacional. Nada mais, nada menos do que isso.

Prontamente um colega de sala de Liberato, conhecido por ser um grande bajulador desse infame professor, levantou a mão e, quando a palavra foi dada a ele, passou a discorrer um discurso de total apoio ao do mestre:

─ Realmente, desde que o Partido Ecologista assumiu o poder estamos economizando e racionando energia, água e até comida! E olhe que nós não temos falta desses recursos, simplesmente é por capricho ambientalista deles. Nem carne sequer agora podemos comer! Nem carne! Até carne é “ecologicamente incorreta"! Isso é um ataque as pilares de nossa civilização, né professor?

─ Exatamente, uma afronta a nossos princípios básicos.

Liberato já não aguentava mais. Interviu sem muito pensar, sem hesitação:

─ Isso é aula de Atualidade ou uma aula de Doutrinação Subversiva? Me parece ser o segundo, professor.

─ Silêncio! Peça permissão antes de abrir a boca em minha sala de aula. Mas sim, que seja o que tu falaste, o que tu farás então? Me denunciar?

O professor riu, mas riu um riso contido. Porém esse riso não foi o suficientemente discreto ao ponto de passar imperceptível a todos os alunos silenciados e, sobretudo, Liberato. O nervosismo passou a consumir Liberato por completo, ele iria o denunciar.

─ Sim, é isso que farei, o denunciar!

─ Me denunciar Liberato? Tu passaste de todos os limites, saía de minha sala! E não volte na próxima aula, tu estás suspenso dela.

─ Eu estava pensando já em me retirar. E não se preocupe em me ver na próxima aula, pois ela nem sequer irá existir! Lhe garanto isso, professor.

O professor ficou extremamente sério diante da gravidade do quê podia vir, porém continuo a dar sua suposta aula com poucas interferências mentais e de seus pupilos.

Liberato saiu da sala enfurecido, desceu as escadas correndo e logo estava na rua molhada. A chuva já havia parado, mas a água ainda não desaparecera completamente. Logo no outro lado encontrava-se seu próximo destino: a Delegacia Especial Política e Ecológica, responsável por crimes políticos e aqueles cometidos contra o meio-ambiente, conforme o Ato Ecológico.

Ao chegar na delegacia, Liberato teve muita sorte: encontrou policiais de plantão dentro daquele prédio intimidador:

─ Senhor, em que posso lhe ajudar?

─ Tenho uma denúncia de subversão.

─ Olhe, caso seja um trote saiba que existe uma punição que realmente é aplicada.

─ Não, não é um trote.

─ Se realmente não o for, preencha esse formulário.

O oficial entregou-lhe um extenso requerimento de inquérito sobre a tal atividade subversiva, mais de vinte campos a serem preenchidos. Exigia-se detalhes com tremenda precisão, como o horário e local do crime, nomes de testemunhas, transcrições fiéis das falas subversiva e outras muitas informações preciosas (e outras inúteis). Sorte de Liberato que sua mente não o traíra, pois nenhuma informação ele não sabia dar. Finalmente o formulário estava preenchido e foi entregue sem maiores delongas.

Ao sair da delegacia, Liberato sentia-se renovado. Tinha feito sua benfeitoria do dia: salvar seus colegas, e outros futuros estudantes que os sucederiam, de um profissional subversivo como aquele. Além do mais, o professor também aprenderia a dar-lhe carona, de uma vez ou outra.

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Sobre o Texto

Uma reescrita de uma aclamada, se posso assim dizer, prosa: http://sps.sitenl.net/2008/07/11/o-professor-subversivo