Dengue, dengue, dengue. Eu avisei... "vai rolar dengue nessa cidade!" Quem me ouviu? Em? Quem me ouviu? Como se tudo a mim dependesse, a ir na casa alheia para tomar as devidas providências que a secretaria cansou de ensinar. "Não deixar tampas abertas, garrafas vazias viradas para cima..." etc, etc, etc. Cansei. O povo tem mais é que se foder todo mesmo. Tem que aprender na pele, por bem ou por mal, que a dengue mata. Sangra e mata.
O suor começou a cair pelo seu pescoço.
Depois vem a mídia dizer que estou de braços cruzados. É claro que estou! É piada, querem que a gente passe inseticida na rua, como se isso fosse resolver. O prefeito chega e diz: "olha só o que o jornal tá falando, que a gente é um bando de incompetente... por sua causa!" Por minha causa? Claro, o culpado pelo estado-das-coisas na saúde sempre é o secretário da saúde. A educação, fazenda, transportes, etc, tudo está isento. Como se não saber, melhor, não fazer o que já sabe para conter a dengue não fosse algo que fuja de minha responsabilidade. Eu sou também o secretário da teimosia tola do povo. Que ótimo! Sou responsável pelo povo! Que piada.
Daqui a pouco vai ser culpa minha a indústria farmacêutica estar indo de mal a pior, caso continue a fazer uma gestão exemplar... que todos dizem que é "ineficiente, corrupta e burra", apesar dos resultados. Aí vai ser minha culpa a demissão das fábricas de remédio por ter melhorado a saúde da cidade. Isso soa ridículo secretário, mas não duvide não. Não duvide da bizarrice da mídia e do imaginário popular.
Você sempre será culpado pelas coisas que estão a seu alcance, e pelas coisas que também estão fora dele.
O secretário então sentou-se em sua luxuosa escrivaninha e colocou seus pés na mesa.
Culpado, culpado, culpado. É tudo culpa do secretário da saúde! Me poupe.
