Da Política Pecuarista

— Senhoras e senhores!

O político estava tentando, com aparente sucesso, conseguir a atenção de sua plateia meio que apática.

— Senhores! Tenho ótimas notícias para vós!

Com falso entusiasmo, o engravatado pegou do vácuo um pendrive e inseriou-o no laptop que estava acima de sua mesa. Quase que imediatamente, a apresentação de slides projetou-se na parede branca da sala em que todos estavam. Diante de gráficos e tabelas crescentes, projetos de leis sem-fim e fotos de relevância, a plateia aumentou sua simpatia.

— Como podem ver, tudo vai bem!

A cada slide que o político passava, mais sorridentes e alegres os membros do público ficavam. Em pouco tempo alguns levantaram-se, para dar as primeiras palmas diante ao, já satisfeito, palestrante de terno. Isso chamou a atenção de quem estava passando em frente ao prédio da reunião: um pedestre aleatório, um cidadão irrelevante. Ele refletiu antes de adentrar a sala, porém sua curiosidade era maior do que sua relutância, fazendo-o permanecer lá, ouvindo o político, depois de observar os dados na parede.

— Senhores! A quantidade de queimadas aumentou em todos os cantos da amazônia.

Um senhor, em algum canto místico da sala, ao ouvir tais palavras, soltou gargalhadas excêntricas. O senhor em seguida caiu, porém com um temível sorriso de satisfação, enquanto amigos tentavam o colocar em uma cadeira.

— Quatro projetos de lei, em tramitação na casa, tratam de aumentar a área legal de vossas pastagens e flexibilizar as leis trabalhistas, ambientais e de proteção aos animais. E como podem ver pelas fotos, a cada dia que se passa, a floresta diminui-se.

Todos, exceto o senhor risonho e o pedestre, levantaram-se para saudar o orgulhoso palestrante-deputado. O choro de alegria e satisfação deixou seus olhos avermelhados e o ambiente levemente mais úmido. Foi então que o pedestre percebeu do que se tratava: de uma reunião da pior classe patronal, pecuaristas.