Ele acordou cedo como sempre. Seu compromisso com para o colégio não parecia ter fim. Acorda, já está na hora Henrique! Já estou indo. As aulas eram sim, insuportáveis para ele, mas não era como se ele tivesse alguma escolha. A questão era passar no vestibular, sua vida dependia nisso, ao menos era isso que tentavam colocar em sua mente. Passar, de primeira e na Federal. Continuaria acordando cedo, indo às aulas de matérias que não tinha o mínimo interesse e que não teria verdadeira utilidade futura.
A sua mochila estava abarrotada de livros a cadernos envelhecidos prematuramente pelo uso intenso. Se continuasse assim, acabaria ficando com hérnia de disco ou, até mesmo, com lordose, como alguns de seus colegas. Ao sair de casa, sem tomar café da manhã, deparou-se com um caminho tortuoso até o ponto de ônibus. Entre a casa de Henrique e o ponto, a calçada estava em péssimo estado, fazendo com que alguém sempre tropeçasse, mas esse dia não foi a vez de Henrique. O ônibus nunca tinha horário certo para chegar, mas quando chegava sempre estava lotado. Os passageiros faziam uma extensa fila indiana para entrar. Sentar não era alternativa, só restava aguardar alguma compaixão de um sentado. Deixe que seguro.
A saída sempre acabava sendo meio que desastrosa. A mochila pesada acabava por atrapalhar na corrida, sem contar os inúmeros cidadãos que obstruíam o caminho. Naquele dia não foi diferente, mas uma senhora na frente fez um discurso lamentável. Odeio estudante, e seus livro... tem mais é que morrer. Também havia essa gente, que o odiasse pela sua ocupação: estudar. Gente que não tinha essa oportunidade, ou simplesmente tinha trauma de algum representante da classe que insultou. Ou simplesmente... mal-amada. Velha mal-educada.
Ele tinha sorte, o ponto de ônibus ficava próximo a sua casa e próximo ao seu colégio, pouco precisava andar. Porém, a falta de condicionamento físico era extremamente evidente, ficava afogante com uma “caminhada” de poucos metros até a porta do colégio, mas antes teria que subir uma escadaria de cinco degraus. Bom-dia. A saudação parecia ter tornado-se facultativa, mas ele insistia em usa-la. Bom-dia. A fiscal do corredor da sala dele era novata, recém havia o visto. Bom-dia, cadê a sua carteirinha? Ele tinha esquecido na corrida, como sempre. Teve que assinar e ceder sua carteira de identidade.
O corredor estava lotado, era um sinal de que ele ainda não tinha chegado muito atrasado. Porém, nada o garantia que ainda poderia pegar um local privilegiado, na frente. A disputa era acirrada e minutos de diferença poderiam dizer quem sentaria nas primeiras cadeiras e quem sentaria no fundo disperso daquela sala de aula.
Os seus colegas em maioria já tinham chegado, mas havia uma cadeira na frente. Estranhamente estava realmente livre, ninguém tinha se interessado, e logo ele pegou sem vacilo numa corrida fulminante. Foi obrigado a atirar sua mochila a distância, para que uma outra colega, bem louca e desesperada, não pegasse o lugar que o era seu, de direito. E aê mano? O papo do início da aula era típico: lamentar antecipadamente de ter vindo. Cumprimentos aqui, cumprimentos acola, Henrique foi dar uma visita na sala ao lado, onde tinha algumas amizades.
Olá rapaz? Como vai? Vou bem, e você Lú! Também. Ela sempre estava bem, melhor: sempre dizia que estava bem. Todo mundo dizia isso, mas no fundo, todos estavam bem mal. A tímida conversa dele tinha segundas intensões, ele estava, no final, conhecendo melhor aquela linda Luiza, e ela fazia ideia do que ele queria. A conversa estava tão prazerosa que perderam o tempo e o professor de Biologia já estava na sala dela. Bora, bora gente! A despedida acelerada de Henrique foi mais por causa do seu professor de Literatura, que não permitia a entrada atrasada de alunos em sala de aula, do que do próprio professor de Biologia.
Tô chegando, tô chegando! Quando as pessoas de uma turma avistavam o professor de Literatura, pareciam ser carneiros atrás de seu pastor. O seguiam sem erro: se ele resolvesse, por exemplo, voltar, todos voltariam. Perder aula era um medo constante e gigante diante desses pupilos. E Henrique já sentiu na pele o preço de não chegar antes do professor de Literatura. Uma aula do último ano equivalia a alguns pontos no vestibular, pontos que ninguém podia dar ao luxo de perder, não era brincadeira não.
Ter aula era preciso, mas divertir-se com ela? Isso não era preciso. E no caso da de literatura, isso impossível. Porra, na moral... que saco viu man? Nem me fale. Enquanto o conhecimento não parecia estrar em sua cabeça, Henrique assistia a um relógio estático. O tempo estava parado como o ponteiro de seu relógio analógico. Tempo desperdiçado, mas desperdiçado em que? Henrique realmente não fazia muita coisa em dia de semana de manhã cedo... além de dormir. E dormir não é algo lá muito produtivo, mesmo. Bem, galera, olhe aê: a Pós-Modernidade pode ser caracterizada pela a ausência de Escolas Literárias...
Falta quanto? Cinco minutos. Finalmente! No intervalo também não tinha muita coisa para fazer. Conversar com o pessoal sobre a questão sócio-econômica da nação, a Revolução Ecologista, essas coisas básicas que interessavam a todos, ou até mesmo trocar informações sobre os acontecimentos na vida escolar: quem pegou quem, quem foi reprovado em que, quem quer fazer o que, quens e ques. Mas naquele dia, o pessoal estava realmente chato. Henrique preferiu ver os seus amigos da outra turma, que só falavam em provas. E então, quando saí o resultado da Olimpíada de Biologia? Nem sei.
Naquela sala, havia colega chamada Maria Fernanda. Linda Mafê... Ele flertava com ela sempre quando possível, mas ela não era lá de muita conversa. Praticamente só conversava com o seu amigo Samuel. E aê, como vão vocês? Bem, e você? Bem também... Quando finalmente uma conversa produtiva estabelecia-se entre Mafê e Henrique, o sinal tocou. Poxa, tenho que ir... aula de Matemática, ninguém merece. Vá lá, relaxe, que tudo fica de boa.
O professor de Matemática era outro, extremamente chato. Nem os mais aficionados em Matemática tinham tesão pela aula dele. Enquanto uns dormiam, tantos outros conversavam. Era um verdadeiro mangue. Vocês vão me respeitar quando? Quando serei forçado a retirar algum de vocês de sala? As ameaças dele eram constantes, vagas, e nunca iam para frente. Sim, sim professor, já ouvi esse papo antes. Os dorminhocos eventualmente acordavam por causa da conversa que crescia em intensidade.
Ele escolheu o dia para tirar dúvidas de exercícios, que quase ninguém fazia. Henrique nem deu o trabalho de pensar em fazer os exercícios, e meia hora depois do início da aula estava dormindo. A baba dele já começava a molhar seu caderno. Na medida em que o seu sono aprofundava-se, este rendia-lhe sonho com a aula de matemática. Verdadeiro pesadelo, pois um sonho com números era um tormento.
Distraída por ele, Maria Fernanda estava lá, em suas nuvens sonhadoras. O papo estava ótimo, chegou ao ponto climático: o beijo. E então ele a beijou com toda sede de saliva que semanas, meses de seca o fomentara. Estava finalmente, com Mafê em seus lábios, só dele. Sua mão passava-lhe em todo o corpo, e a dela passava em sua cabeça. Na verdade não era mão dela, mas sim do professor. Henrique! Henrique! Realmente, o professor estava o chamando. Vá ao banheiro limpar a cara para acordar. Aproveite e traga um copo de guaraná para mim.
Henrique queria mesmo é não voltar. Foi ao banheiro, lavou a cara, a secou, panteou o cabelo, urinou, lavou a mão, foi ao bebedouro, conversou com um colega da outra turma, foi à coordenação, conversou com a coordenadora, pegou um copo de guaraná, bebeu-o, pegou outro copo de guaraná e voltou para a sala de aula. Muito obrigado.
O professor estava se debruçando em cima de uma questão simples de logaritmo. Mas rapaz, essa questão está complicada. Henrique sabia exatamente qual era o problema que impedia o sucesso do seu professor. Porém, o próprio professor não queria ajuda... era uma questão de honra! Rápido, acho que já sei qual é o problema. Demorou mais cinco minutos tentando, até que o sinal tocou para o intervalo. Calma, calma! Esperem, essa questão é uma questão de hora [sic]. Professor, você anotou a questão errada. Mas rapaz... pior que é verdade... é deixe pra lá, podem ir para o intervalo de vocês.
O esperado intervalo, naturalmente, não tinha tanta coisa para se fazer. Os colegas, em sua maioria, tinham saído em manada para fora. Quem restou ou queria estudar ou queria dormir. Na outra sala ninguém estava. Henrique resolveu seguir a maioria, sair do colégio, onde avistou um céu nublado, porém sem chuva certa. Foi para o ponto de encontro do pessoal, a lanchonete, do outro lado da praça. Lá o pessoal conversava coisas aleatórias, os fumantes, fumavam, e todos comiam algum lanche. Véi, que aula chata... tem aula de Atualidades depois, né? Exatamente, ninguém merece. Ninguém mesmo. Uma ventania fria anunciava a chegada da chuva, e quase que imediatamente choveu. Toró!
Parecia um bando de formigas correndo em direção ao prédio, do outro lado da praça. Nem aqueles que estava planejando perder propositalmente a aula hesitaram em não procurar refúgio. Não demorou muito, o suficiente para Henrique encontrar o que fazer, para o sinal tocar e serem ordenados a voltar às salas. Bora, bora, bora! Henrique não foi poupado da chuva.
Úmido e no meio do calor humano de dezenas de estudantes suados, Henrique procurava encontrar um local menos abafado. O encontrou logo debaixo do sinal, que todos eram sensíveis ao barulho insuportável. Todos, exceto ele. O controlador do sinal, ao aproximar do temível botão, alarmou por gestos faciais que iria executar sua tarefa. Quem viu, tapou os ouvidos. Quem não viu, entrou em desespero.
E aê meu rei? E essa chuva de Jah? Eduardo só falava em Jah. Rapaz, você já sabe no que deu. Henrique não precisava responder, estava, ainda, todo ensopado. A sala ia se enchendo lentamente, apesar de quase todos estarem a beira da porta ou no corredor. O professor, impaciente, estava tentando sair da sala da direção, no andar superior, o mais rápido possível. Só chegou a sala com alguns minutos de atrasado. Gente, quero trabalhar e vocês estão me atrapalhando. A culpa, na verdade, era dele, mas sua cegueira de realidade era imperceptível a ele.
A aula não era aula, era doutrinação. Começava-se com a leitura do jornal local, O Dia. TRAFICANTE DE DROGAS É CONDENADO A VINTE ANOS DE PRISÃO. Tratava-se de um suposto traficante local, que supostamente matou o suposto filho de um suposto político, que supostamente foi denunciado pelo suposto jornal O Dia, que supostamente foi julgado por um suposto juiz, que foi supostamente condenado a supostos vinte anos em uma suposta prisão. Um absurdo! Tanto o professor quanto o próprio colégio eram extremamente anti-governistas. Tudo que vinha do governo, toda e qualquer ação era condenado pelo professor. Ele fazia os alunos repetir em alto e bom som. Um absurdo! Não se pode condenar um mísero traficante de drogas há vinte anos de prisão! Quem deveria ser preso é o usuário, o viciado, este sim, é o maior criminoso! E o professor deu uma bela e profunda fungada.
Como um pilantra desses pode ficar com apenas vinte anos de prisão! Isso é uma vergonha nacional! Ele só fazia condenar a pátria . É por isso que nosso país não vai para frente! Henrique acabava por concordar. O professor acabava sempre misturando o assunto com política, colocando como se a atual administração fosse culpada por todos os problemas da nação. Isso só acontece por causa daquele presidente inerte que as elites colocaram no poder: essa é a verdade! Tinha sempre um que fazia questão de bajular Sim, são nesses momentos que dá vontade de jogar uma bomba no palácio presidencial! A única pessoa que levantava a voz contra o doutrinador não estava presente, pois ele sempre estava atrasado, quando vinha.
A aula foi extremamente radicalizada e improdutiva, como sempre. O sinal demorou para tocar, mas quando tocou todos ficaram aliviados, sobretudo o professor. A corrida dos estudantes começou na própria sala de aula: alguns já estavam levantados, só esperando o sinal tocar enquanto o professor terminava seus inaudíveis discursos. Ele foi outro, saiu entre os alunos que ainda estavam levantando-se, com uma pressa misteriosa e muito suspeita. Sempre havia um gaiato no meio do caminho, atrapalhando a passagem do corpo discente, ignorando os gritos furiosos daqueles que não podiam dar o luxo de um pequeno atraso, ou por estarem sem paciência de permanecer mais um segundo sequer dentro do estabelecimento ou por terem horários a cumprir.
Encontram no asfalto molhado de chuva recente, o caminho para suas residências. Mais um dia se passou, mais uma aula se foi, e mais se está próximo do final do ano, das férias, do vestibular. Henrique teve sorte, seu pai pôde buscá-lo no colégio. Do outro lado da praça, filho!
Lá fora, o amontoado de colegas continuavam conversando, marcando coisas para o dia seguinte, a tarde. A manhã deles seria consumida por mais um simulado de vestibular: rotina de vestibulando. Henrique ficou de ir ao cinema com seus colegas tradicionais, apesar de estar profundamente entediado com os milhares de filmes clichés que acabavam sendo obrigado a assistir, consequência da falta de oferta de bons filmes no circuito comercial.
Como sempre, Henrique foi interrompido, no meio de um acerto crucial com seus amigos, pelo toque irritante de seu celular. Era seu pai, ele já estava do outro lado da praça. Correndo, saiu pela rua, no meio de alguns carros parados, cujos motoristas estava extremamente irritados com a lerdeza do trânsito. Deu-se com a porta do carro de seu pai. Abriu-a e atirou sua mochila, para então atirar-se lá para dentro. Finalmente, sossego.
Comentários
... meu Deus... esse texto
... meu Deus... esse texto ficou enorme aqui no Blog o.o.
Bem, "Mais um dia na vida de Henrique" foi, até agora, o meu texto mais demorado e longo... 2010 palavras, 11889 caracteres (sem contar o título). Demorou mais ou menos quatro meses (com longas interrupções) para colocar o ponto final definitivo e sossegado nesse texto.
Muito bom! Em alguns momentos
Muito bom! Em alguns momentos parecia meu dia (principalmente do pai que só pega do outro lado, mesmo embaixo de chuva). Quantas lembranças, Sam... Agora, não vamos ter mais isso.
É isso aí, Maria... Não fiz
É isso aí, Maria...
Não fiz meu terceiro ano com vocês, mas essa época foi boa demais... esse conto é uma sessão nostalgia para alguns, e para outros, um esboço do que estar para vir.
Finalmente livres desse tormento, e chegando a um pior... aspirantes a universitários.. muito bom, mestre!!
Por sinal, Henrique quer o quê pro vestibular? Ciências Sociais? 8D
@ Rafael: Henrique está em
@ Rafael: Henrique está em dúvida entre Direito, Medicina, Engenharia Elétrica, Dança e Letras Vernáculas com Latim.
Acho que ele passa em
Acho que ele passa em Medicina... ou não =)
reconheci alguns professores
reconheci alguns professores de biologias, literaturas... ou não. ;D
(sim, sim, nossos "portadores" sempre nos pegavam na outra rua.) :Y