O braço levantado com o dedo estendido para o infinito em um ângulo de 90º. Essa é a indicação para pedir que o ônibus pare naquele ponto, e não eu estava podendo a usar pela ausência de um buzu que passasse no Salvador Shopping! Faziam-se 20 minutos, meu corpo estava torrando no sol soteropolitano do meio dia até que finalmente o Barroquinha chegou ao ponto. Quase que não parava, tinham uns três ônibus em sua frente que, possivelmente, obstruiriam a visão do motorista. Mas ele parou e entrei para dentro com toda a velocidade que tinha pois haviam mais outros seis afobados em minha cola.
Lotado, todas as cadeiras ocupadas, todos os espaços tomados, até gente nos degraus antes do cobrador tinha. Mas fazer o que? Esperar mais outro ônibus abarrotado daqui meia hora? Não teria tempo nem disposição para isso. Antes ficar naquela lata de sardinha sobre rodas, abarrotada, do que esperar no sol ardente pelo incerto. Além do mais, a sessão do cinema não seria alterado por capricho meu.
Me estacionei logo depois da roleta, em um canto ainda vazio. O cobrador, um senhor nos seus 65 anos, estava do lado, colando os vales transporte do MetroPasse em uma espécie de tabela numerada que ele dispusera em sua mesinha. Em minha frente, um homem e uma mulher não paravam de comentar o quão lotado estava o ônibus, mas o cara, em especial, queria mesmo era tomar a cadeira dela. O ônibus vai esvaziar quando chegar no Salvador! É, tomara que sim.
Enquanto o ônibus continuava em seu trajeto pela orla da cidade, passando por Patamares, Boca do Rio, Aeroclube, ele enchia-se progressivamente. Ao verem quão lotado estava o buzu, as pessoas, que tanto o aguardaram, exitavam em entrar-no. No final percebiam que só depois de mais vinte preciosos minutos outro Barroquinha chegaria, possivelmente tão lotado quanto o que estava em suas frentes, e entravam-no de qualquer forma. Chegou ao ponto em que ficou humanamente impossível enfiar mais gente, porém ainda havia alguns insistentes que davam um jeito para entrar.
Ao dobrar para o Costa Azul, as pessoas agitaram-se. Todo mundo queria ir o mais próximo possível da saída, mas tinha tanta gente que a fila que se formou começava já no meio do ônibus. A confusão estava montada, eu sentia. Não só eu, as pessoas a minha volta também. Essa porra vai dar em merda. Era uma desgraça anunciada, só faltava chegar ao Hospital Sarah Kubitschek para confirmar-se.
E então chegou-se lá. Era o ponto em que todos queriam descer, então fomos movimentando-nos para a porta. Umas duas pessoas saíram e o motorista já queria ir embora. Pera aí! Outra conseguiu sair e então o ônibus movimentou-se para o lado: estava no meio da pista. Desgraçado, vai perder o emprego! Miserável! A raiva, o ódio, aquecia ainda mais o ônibus lotado de calor humano.
Já estávamos em Pernambués, um ponto para a Estação do Transbordo, quando o motorista parou. Saímos em massa, putos, xingando o maldito. Ele ainda se negou a abrir a porta para entrar as pessoas que lá esperavam, já se faziam 20 minutos, por aquele ônibus.
Segui só, no sol escaldante, para o Salvador.
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hum... adoro crônicas da vida
hum... adoro crônicas da vida costumeira!