Você pode ter o quê você quiser,
ser quem você bem entender, inclusive
andar sobre a água e ser dono de tudo
que sua vista ilimitada de raio xis alcançar.
Basta você querer, inventar aparelhos,
dominar todos os corações e mundos.
Implantar ditaduras democráticas,
com suas convicções mais íntimas.
Ou, se tudo isso soar muito
difícil e complicado, se iludir
para sempre, tomando como
verdade que o mundo terreno
é como você sonhou e quis.
com seus relâmpagos
e com seus trovões.
Não me deixa sair
de casa sem um guarda
chuva, chuva, chuva.
Em um laboratório yankee,
macacos são usados em
nome da mais avançada
cientificidade experimental.
Trabalhadores trabalham
insanamente e sem folga
para fazer os testes mais
duvidosos e questionáveis,
em nome de sua saúde e
dos bolsos dos acionistas,
para cumprir a legislação
sanitária de sua nação.
Dia desses, por desatenção
um funcionário esqueceu a
mercadoria numa de suas
embalagens metálicas.
A mercadoria recebeu um
banho um tanto calorento,
banho este que nunca viu
o fim em vida.
A vaca leiteira entristecida
come sua ração sem gosto
no tédio do cubículo que lhe
impuseram como moradia.
Arrancaram seu filho bezerro
de suas tetas inchadas e inflamadas,
pela força feita por máquinas que
sugam o bovino leite materno
para amentar gente humana feita.
O bezerro não conhece sua mãe,
nem conhece a bovina vida fora do
buraco de tortura em que mora.
Nem sequer sabe o que é comida
que bezerro de verdade come.
São máquinas de fazer leite,
e carne de muitos cifrões,
nada mais que coisas que
berram e sabem que vivem,
ou melhor: sobrevivem.
O molusco, que no planalto
anda de faixa tricolor, crê
que tem o poder de dizer quem
no mundo morre e quem nele vive.
Ele dita quem é importante e
excluí quem ele julga desprezível.
Se acha Deus em forma humana,
e a partir dessa ideia obtusa fala:
"Que os homens, e apenas eles sejam
os que para nós humanos importem."
E assim ele criou barragens, afogando
não-humanos em água, sangue e terror.
Baseado em um diálogo virtual com a estudante de Biologia Rafaela Marocci.
Em uma das esquinas, o curandeiro que já se achava juiz, encontrou uma xamã que cuidadosamente observava uma pasta feita de besouros triturados, através de microscópios descartados que encontrou no matagal. Quando o curandeiro chegou perto da mulher de jaleco branco, a advertiu com tom profético:
─ Olê-olê-olá! O Grande Círculo de Fogo esplandece no céu, e seu calor arde em minha alma. Sabe o quê isso significa, minha cara?
─ Que o sol está a pico?
─ Não só isso... significa que é dia, e do dia existe vida! E assim, se dá para viver, como dizes no suas límpidas roupas: “Não dá para viver sem vida”. Mas seria essa vida digna de ser vivida, xamanzinha?
─ Disso não sei. Mas sei que estou vivendo.
─ Que Plutão lhe abençoe com tanta nanica força planetária... ops, ele não mais é planeta... pois, pois, que assim mesmo ele lhe abençoe, abençoe sua vida e seu viver!
A xamã riu diante do gaguejo do curandeiro, mas lhe foi graciosa:
─ Amém! Você também vive. Nós vivemos. Só vivemos. Sós não, às vezes, sempre vivemos só. Somente viver.
─ E xamanzinha... e quem sobrevive? Tem vida mas não vive? Oh, me conte as verdades que as células tanto te dizem!
─ Quem sobrevive nada mais é que um sobrevivente, fraco demais para se deixar afundar com os outros. Nele há vida, mas isso não quer dizer que vive. Elas me disseram que nada somos, além de um monte de pequenas coisas que pensam ser algo juntas. Quanta ilusão! Quanta mentira! Quanta beleza...
─ Ah, essa estética de pedaços me é tão desprezível quanto as estrelas que não exergo. Não enxergo pois a constelações de luzes falsas não me permitem ver o céu. Mas, essa fraqueza que dizes, não seria na verdade uma força? Uma virtude?
─ Se é nisso que você quer acreditar, basta. Tão simples, tão falso, tão bom.
─ Tão falso? Como ousas questionar minha doutrina, minha dogmática sobre os sobreviventes?
─ Com a ousadia de quem não conhece a verdade, nem jura ter a conhecido, tão ilusória, tão mentirosa e bela.
─ Pois a verdade eu carrego comigo, como Lúcio, Júlio e outros tantos, que em latim falavam, nesses tantos e velhos livros.
O curandeiro então jogou em cima dos microscópios o peso que carregava nas costas.
─ Se crês que a velhice por si só trás a verdade, não poderia estar mais enganado.
─ Pois, xamanzinha, é isso que as células lhe contam?
─ Não, é isso que o viver me diz.
─ Então vives erradamente!
─ Que assim seja, julgue você que tem tantos livros anciãos nas costas. Contanto que nada me faça, estarei sempre vivendo.
─ Disso os volumes me dirão.
─ Se forem justos, é isso que aí deve estar escrito! “Não faça nada.”
─ “E à xamã, caso portando instrumentos de valor inestimável, se puser contra as verdades já relevadas, haverá apenas uma censura brusca e nada mais.” Édipo de Napoli.
─ Pois, então a minha pena já foi executada, não?
─ Sim, a foi.
─ Basta, vá embora. Que Marte coma seus livros, faça deles uma pasta mais rica para minhas lentes descartadas do que esses besouros o eram. O olimpo jamais o perdoará, tal como aquele homem que na casinha branca decide em parte nosso fado!
─ Que assim seja e revogue-se as disposições em contrário.
O curandeiro então partiu, satisfeito por ter feito justiça em nome das verdades mais antigas, mas com o eterno medo de um ataque delinquente. Mas a xamã ignorou o encontro infame, e continuou estudando suas soluções e as células pequeninhas que segredos a contavam.
Rodeado de sangue me percebi,
de todos os lados onde olhava
só sangue avistava.
Riachos avermelhados radiavam
de mim. E quando dei-me conta
ouvia gemidos, gritos, insultos.
Ouvia o choro e o esfolamento
do couro no chicote. Tudo ouvi.
Os chutes doíam na minha carne,
como os ponta-pés, as laçadas.
Senti ser castrado sem anestesia.
Senti a serra nos meus dentes,
e a dor do bico mutilado.
Senti minha pele ser arrancada,
para ela respirar o ar exterior.
Senti meu dorso embaralhado.
Senti meu crânio ser aberto,
inundado de água sanitária.
Meus olhos novamente abriram,
para ver-me engordado para morrer,
para ver-me sugado até a exaustão,
para ver-me roubado sem defesa,
para ver-me forçado a ser cobaia,
para ver-me esfolado vivo e caçoado.
Tudo em vão.
Ah, lua dos olhos rasgados,
ilumine meu negro céu com
seu esplendor lunar gracioso,
seja minha luz-guia
na floresta das paixões,
pois és tão suave quanto
a leve brisa na noite
da orla de Amaralina.
As lágrimas saturaram
o solo fértil da poesia,
lavaram-na de toda a
inspiração e criatividade.
Quem dera eu ter o dom
de digitar alegrias nos
versos libertos e albinos,
mas sou cego para o quê
alguns chamam de belo na
exaltação da felicidade extra-
ordinária porém tão comum.
A dor é aguda,
passa de um lado ao outro
do meu peito, mas estaciona
quase sempre no esquerdo.
Acho que estou enfartando,
já faz quase um dia inteiro.
Culpa do sempre criminoso
colesterol aumentado pelos
pasteis e sorvetes que adoro?
Ou seria o vácuo que predomina
em meu coração desde tempos,
quando um amor mal resolvido
fechou as portas dele para todos
os que podiam ousar pensar em
adentrá-lo?
Não sei.
Talvez nem o cardiologista saiba.