Eu e um amigo andávamos na noite escura iluminada pelos holofotes públicos da orla hoteleira de Salvador. Vinhamos talvez do Campo Grande, talvez da Barra, portando nossas mochilas relativamente leves e vazias. Ele tinha um compromisso, cujo assunto não me interessava, em algum quarto de um famoso hotel. Eu apenas estava o acompanhando. Mas nesse hotel também estava acontecendo um evento, onde amigos meus anunciaram suas participações.
Quando lá chagamos, meu amigo foi direto para a recepção e para o elevador. Consegui entrar no tal evento sem grandes complicações, meu nome já estava na lista. Logo quando entrei, avistei dois rostos familiares: uma amiga minha e sua santíssima namorada. Estavam, como sempre, sentadas em um lugar meio que longínquo das atrações principais. Porém, da escuridão surgiu outro rosto familiar, apesar de não íntimo, que só fazia xingar alguns desconhecidos:
— Vão se foder, na moral! Cambada de vagabundos!
O meu olhar era igual a das duas, que passavam a mensagem bem clara de confusão. No meio dessa loucura toda, consegui aproximar-me do casal o suficiente para cumprimentá-las com um aceno. Apenas um aceno, pois já tinha avistado outra amiga, mas em estado deplorável:
— E aê, como vai?
— Vai… como va… a, vou bem, bem… e você, em?
— Hum, estou bem… mas tipo, você está bem mesmo?
— Bla, olhe pra minha cara porra, estou bêbada, na moral…
— Deu para perceber, você tá ligada que isso sempre dá em merda, né?
— Vá se foder.
Senti-me na obrigação de fazer companhia a bêbada solitária, antes que um desastre já anunciado acontece-se. Em meio de xingamentos aleatórios, reclamações sobre os seus familiares e a citação de seus mais íntimos desejos sexuais, a bêbada tomou um susto tremendo com a aproximação de um rosto desconhecido. Havia um lugar vago, e a estranha não tinha onde sentar. Ela falava de Filosofia, Sociologia, o que cativou minha atenção rapidamente.
— Então, lê Nietzsche obviamente, né?
— Não tenha dúvida…
Primeiro, a bêbada ficou confusa, interrogando se nos conhecíamos anteriormente, o motivo de minha desatenção, e outros destalhes inoportunos. Porém, espontaneamente, abraçou a estranha como uma antiga amiga que não havia visto a anos.
— Sua amiga está bem feliz, não?
— Feliz? Feliz até demais.
A vontade de fumar surgiu do nada, ao meio de Nietzsche, Marx e Singer. Retirei dois cigarros, um para mim e outro para talvez a estranha, que prontamente aceitou.
— E o meu?
A bêbada pedia-me fumo como se fosse uma criança de cinco anos pedindo um brinquedo a sua mãe de saias compridas, puxando-me pela roupa.
— Você não fuma faz anos… lembra?
— É, é?
Meu amigo então chegou, em hora bem oportuna. Me poupou daqueles delírios esfumaçados de minha amiga bêbada. Pedi a estranha que aceitasse a incumbência de ser a guardiã daquela que a abraçava, e ela não tinha opção educada além de aceitar o compromisso. Então, como tínhamos que partir o mais cedo possível, despedi-me de ambas. Beijei a recém-conhecida nas bochechas, mas fui ignorado pela bêbada. Então continuamos nossa andança pela orla, rumo ao desconhecido.